Ludovico Persici entra para a história do cinema capixaba como o primeiro a produzir imagens em movimento no Estado. Mas ele fez mais do que registrar cenas do cotidiano da década de 20. Produziu um filme de ficção Bang bang, que pode ser o pioneiro do gênero faroeste no país, segundo Alex Viany, um dos maiores historiadores e críticos de cinema no Brasil. Tudo isso, usando uma câmera que ele mesmo inventou, utilizando peças de gramofone e de relógios velhos.
O cineasta capixaba nasceu em 1898, apenas três anos após a primeira exibição do Cinematógrafo dos irmãos Lumiére, em Paris. Em 1895, o mundo assistia A chegada do trem na estação, um marco do cinema mundial. No interior do Espírito Santo, Ludovico repetiu a cena, filmando locomotivas, passageiros e estações de trem na década de 20.
A partir de 1907 as salas de cinema multiplicam-se com extraordinária rapidez, inicialmente no Rio e em São Paulo, pouco mais tarde em outras capitais e em cidades de interior. O Espírito Santo conheceu o cinema também naquela época. De acordo com Fernando Tatagiba, em História do cinema capixaba (1998), o Éden Cinema foi palco das primeiras exibições. Foi inaugurado em 13 de janeiro de 1907 e pertencia à empresa Camões & Mayo.
Flávia Cesarino Costa, em O primeiro cinema (1995), explica que o cinema apareceu misturado a outras formas populares de diversão, como feiras de atrações, circo, espetáculos de magia e de aberrações. No cenário internacional, os primeiros filmes eram exibidos em meio a teatros de ilusionismo, parques de diversões e cafés. Esses locais eram chamados de vaudevilles, geralmente ligados aos chamados ´salões de variedades`. No Espírito Santo, o Éden Cinema pode ser considerado um autêntico vaudeville. O cinema era todo de madeira, coberto de folhas de zinco e comportava 150 pessoas. Ficava no Éden Park que reunia jardim, bar e bilhar.
Na época do Éden Park, Ludovico ainda era adolescente. Ele foi primogênito dos 18 filhos do casal Maria Giro e Erasmo Persici. A família aportou no Brasil em 1883, fixando-se na cidade de Alfredo Chaves, atraída pela promessa de prosperidade. Em vez da agricultura, Erasmo dedicou-se ao trabalho de ourives e relojoeiro, um conhecimento que trazia da Europa. Todos da casa trabalhavam na Relojoaria Persici, que era famosa na região. Ludovico era o que mais se destacava. Fazia coisas pouco comuns para a idade dele. Já deixava clara intimidade com as engrenagens.
Seus talentos mecânicos começaram a despontar durante a construção da Estrada de Ferro Vitória-Cachoeiro. Ludovico era capaz de construir réplicas em miniatura, com túneis, dormentes e maquinários da obra. A historiadora Almerinda Silva Lopes em Memória aprisionada: a visualidade fotográfica capixaba (2004) escreveu que, desde criança, Ludovico “manuseia ferramentas, desmonta e monta aparelhos apenas para procurar entender como funcionavam. Apesar de sua pouca idade, era admirado pelos vizinhos e amigos pela facilidade com a qual lidava com os mais complexos maquinários”. (LOPES, 2004 p.240)
Na escola, Ludovico estudou apenas até o terceiro ano primário, mas sempre buscou o conhecimento e atividades que promoveram o seu desenvolvimento intelectual. O jornalista capixaba Rogério Medeiros, que pesquisou a vida do cineasta, conta que Ludovico lia muito. Além dos livros técnicos de mecânica, ele gostava de romances de Julio Verne, pioneiro na literatura de ficção científica.
A impressão que temos, depois de mais de um ano pesquisando a vida do cineasta para um trabalho monográfico da Universidade Federal do Espírito Santo, é que a escola era pouco atrativa para uma criança que desde cedo, apresentava sinais de que seria um homem à frente de seu tempo. Queria inventar o mundo. Facilitava a vida da família criando engenhocas domésticas. Fez uma bicicleta de ginástica, montou uma caneta esferográfica que escrevia mais tempo, entre outras invenções.
Enquanto nosso cineasta começava a entender a mecânica das máquinas, o cinema engatinhava em plena vigência de uma cultura racionalista com a revolução científico-tecnológica. O mundo tinha a crença nas vantagens da modernidade e esperava que a ciência desse conta de resolver todas as coisas. Assim funcionava o pensamento positivista. Mesmo no Brasil, onde o atraso tecnológico retardava o desenvolvimento industrial, fazer filmes era uma atividade relativamente simples para os artesãos imigrantes que passaram a se ocupar dela. O primeiro a produzir imagens no Brasil foi Affonso Segreto, que filmou a Baía de Guanabara- Rio de Janeiro, em 1896. Assim como Ludovico, ele tinha descendência italiana. Mas enquanto Segreto usou uma câmera comprada em Paris, Ludovico fez questão de montar seu próprio equipamento.
A idéia de construir a máquina foi um sonho que Ludovico começou a cultivar ainda criança. O irmão mais novo Arlindo Persici, aos 96 anos, contou que, por volta de 1908, um alemão percorria o Sul do Estado fazendo exibições cinematográficas. O estrangeiro era um exibidor ambulante, coisa muito comum nos primórdios da sétima arte. Não há registros da identidade deste estrangeiro. O que se sabe é que o município de Alfredo Chaves estava na rota do exibidor. Ele apresentava cenas de um árabe puxando um camelo pelo deserto, carregado de mercadorias. É provável que este filme tenha sido produzido pelos cinegrafistas que os Irmãos Lumiére enviaram para colher imagens(vistas) de todo o mundo.
Foi neste momento que a imaginação do menino inventor criou asas. Maria Eugênia Fabris Moscon, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (Revista 27- p.81), chegou a conversar com um primo e amigo de infância do cineasta. Trata-se de Valeriano Giro que já é falecido. Ele contou que Ludovico ficou impressionado com a demonstração feita pelo alemão e o cercou para pedir explicações sobre o funcionamento da máquina. Ele também pediu ao alemão que lhe desse um pedaço de filme. E conseguiu. Em vez de prestar atenção às imagens que estavam em exibição, ele preferia analisar, minuciosamente, o funcionamento do aparelho cinematográfico. Ludovico não tinha nem 10 anos de idade.
Aquele pedaço de filme foi a matéria-prima para Ludovico que, a partir de então, passa a pensar no projeto de construção de sua máquina de filmar que, a exemplo do Cinematógrafo dos Irmãos Lumiére, seria ao mesmo tempo, câmera e projetor. Para exibir o pedaço de filme que ganhou do alemão, Ludovico improvisou seu primeiro projetor, “usando latas e pedaços de vários tipos de peça. Ele também construiu a lente que usou neste primeiro projetor”, explica Maria Eugênia.
A sétima arte parecia mesmo o destino daquele menino curioso. Entre 1908 e 1911, o Rio de Janeiro vivia a época de ouro do cinema brasileiro, a ´Bela Época’, com mais de 650 filmes produzidos. Todas as novidades do mundo chegavam primeiro na Cidade Maravilhosa. E foi justamente lá que Ludovico foi viver em 1910. Por ordem do pai Erasmo, ele foi aprender sobre o trabalho de ourivesaria e relojoaria em uma conceituada loja de propriedade de Manuel Palmerio, imigrante espanhol.
Para Arlindo Persici, não há dúvidas. Ele relata que embora Ludovico cumprisse os compromissos de aprendiz, não era a ourivesaria que enchia os olhos e o coração dele, mas outra arte. No Rio de Janeiro, ele se torna freqüentador assíduo dos cinemas, a ponto de ver várias vezes o mesmo filme. Ludovico assiste, inclusive, à ascensão de Hollywood devido ao recesso do cinema europeu, com o início das guerras mundiais. Surgiam então os primeiros grandes estúdios norte-americanos Keystone Company, Famous Players (futura Paramount) e Fox Films Corporation. Nesta época, Antônio Leal, imigrante italiano, realiza Os estranguladores, o primeiro filme de enredo brasileiro. A construção da máquina de filmar ainda era um sonho para Ludovico.
No Rio de Janeiro, Ludovico permaneceu por quase três anos. Diante das habilidades que ele apresentava no aprendizado, o dono da relojoaria, pensou em levá-lo para a Espanha e colocá-lo em contato com o desenvolvimento tecnológico que a Europa experimentava desde a Revolução Industrial. O pai Erasmo teria logo tomado conhecimento das intenções da família Palmerio e impediu a viagem. Levou o filho de volta para o interior capixaba. Na década de 70, quando conheceu a história de Ludovico, o crítico Alex Viany destacou esta passagem como o grande erro da vida do cineasta: não ter ido para a Europa.
Na volta para casa, Ludovico trouxe livros técnicos. Não se tem dados de quais e quantas eram as publicações. Sabe-se que, com eles e com o pedaço de filme que ganhou do alemão ambulante, Ludovico retomou o projeto de construção de sua máquina. Estava ainda em Alfredo Chaves e logo se mudaria para o distrito de Castelo (Cachoeiro de Itapemirim), seguindo um fluxo migratório que apontava para as terras férteis da região. A mudança para Castelo permite o reencontro de Ludovico com o cinema, como tinha no Rio de Janeiro. Ele passa a trabalhar como operador de projeção do “cinema do Seu Rangel”, o único que a cidade possuía. Algum tempo depois, o local mudou o nome para “American-Cine”, propriedade da família de Anthero de Castro Rodrigues. Naquele exato momento Ludovico faz o esboço, desenha o projeto da máquina. Em 1919, Ludovico segue sozinho para Afonso Cláudio onde monta sua própria loja. O projeto de construção da máquina de filmar segue com ele.
Há informações não confirmadas, de que ele dedicava-se ao cinema em segredo. Quem entenderia tamanha dedicação a uma engenhoca que ninguém tinha noção de como funcionava?
Em 1923, já casado com Eliza Fernandes D’ Ávila, o inventor dependia do trabalho da relojoaria para a sobrevivência dele e da mulher. Por isso, a invenção era atividade secundária. Como conta o irmão Arlindo Persici, Ludovico costumava trabalhar na criação da máquina depois do jantar e seguia até a madrugada.
Em 1924, o inventor faz nova mudança. Vai para Conceição de Castelo. Usando um velho projetor, Ludovico monta a primeira sala de cinema do local. Ele saía vestido de palhaço pelas ruas, tocando piston (instrumento de sopro), chamando o povo para o início das sessões. Eram os clientes que levavam as próprias cadeiras, fato comum naquela época nos cinemas do interior. A cidade de Castelo não demoraria a receber o inquieto Ludovico de volta. Em 1926, ele retorna ao trabalho no American-cine. Chega com algo a mais na bagagem: a máquina de filmar.
Nos ciclos regionais de cinema no Brasil, de acordo com as pesquisas do Ciclo de Cinema Brasileiro (1987), há sempre um artesão habilidoso e aventureiro, em geral de origem humilde, que improvisa equipamento, adapta ou inventa máquinas, imagina enredos e diferentes expedientes pouco convencionais para angariar recursos de produção. Assim era Ludovico, embora seu trabalho não faça parte de nenhum dos ciclos historiografados no Brasil, ele conseguiu construir sua máquina, mesmo com todas as previsões pessimistas do meio em que vivia.
A máquina recebeu o nome de Apparelho Guarany. Trazia centenas de engrenagens. As caixas por onde passavam as fitas de filme, foram desenvolvidas com antigas latas de manteiga. O equipamento reunia quatro funções: filmar, projetar, copiar e medir o filme. Todas as ações podiam ser executadas com um único mecanismo motor, acionado manualmente ou por força motriz. O inventor obteve a patente, que, à época chamava-se “privilégio de invenção”. Ludovico viajou ao Rio de Janeiro em fevereiro de 1927 para requerer o registro que foi oficializado em 20 de dezembro do mesmo ano, na Secção de Patentes de Invenção, Directoria Geral da Propriedade Industrial, Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. A patente teve o número 16476.
Arlindo Persici transcreveu as palavras de Ludovico no momento em que retornou da viagem ao Rio de Janeiro com a patente em mãos: “a funcionária que nos dava assistência perguntou em que indústria mecânica tinha se dado o invento. Quando soube, por mim que fora tão somente em minha oficina de ourives e relojoeiro, ela ficou perplexa e admirada. Depois, levantou-se e dirigiu-se às mesas dos colegas e foi passando a minha informação. Todos os colegas se levantaram e se dirigiram a meu encontro e crivaram-me de admiradas perguntas. Confesso que foi um dos momentos mais gratificantes da minha vida”.
O pedido de patente foi como “privilégio” de aperfeiçoamento em aparelho cinematográfico e não de invenção. Ludovico tinha consciência de não ter inventado o cinematógrafo. Ele buscou aperfeiçoar os comandos disponíveis para o equipamento de filmar. Destacava que sua máquina era forte, durável e fácil de manejar. Dizia ainda que ela oferecia a vantagem de ser portátil e pesar menos do que as máquinas fotográficas do mercado. Ele chegou a defender que o equipamento detinha o mecanismo mais perfeito que até então se conhecia. Em vários trechos, o registro cita as máquinas do mercado de então como referência para explicar o funcionamento mecânico do equipamento de Ludovico. O registro deixa evidente que não há novidade em sua criação, no que diz respeito às operações de filmar e projetar. O que ele justifica como diferencial é o fato do aparelho medir e copiar o filme, além de avisar, por meio de uma campainha, o término da sessão. O escritor Domingos Ubaldo Lopes Ribeiro em Município de Cachoeiro de Itapemirim – Suas terras, suas leis, seu progresso, sua gente (1928) traz o texto original do registro de patente, explicando, item a item, cada uma de suas engrenagens.
O cineasta Luiz Tadeu Teixeira explica que a máquina trazia uma mecânica à frente de seu tempo e funcionava de forma semelhante ao sistema Polaroid, “uma revolução da fotografia que seria industrializada mais ou menos 50 anos depois”. Teixeira destaca ainda que “O Espírito Santo perdeu uma grande oportunidade de abrir caminho para a instalação de uma indústria do cinema, que teria sido importante para seu desenvolvimento econômico”.
A notícia da invenção logo se espalhou pelo Espírito Santo. Ao final de 1926, o ano em que a máquina ficou pronta, a Revista Vida Capixaba (1926) muito conceituada na época, trouxe uma matéria, assinada pelo jornalista José Cola, que era morador de Castelo, com o título Um novo invento. O texto apresenta Ludovico totalmente orgulhoso e seguro de um futuro promissor. Ele conta envaidecido que a sua invenção devia-se ao “seu persistente estudo auto-didáctico, mantido, sem tréguas, durante um longo período de annos”.
Segundo afirmação do jornalista, a perfeição do aparelho de Ludovico iria “revolucionar por completo a arte cinematográphica”. Ele conta que o equipamento teria ainda outra qualidade: “o fato de se livrar de certos incidentes, de que ainda não conseguiram se libertar os apparelhos ordinários, particularmente, de incêndios”. José Cola incluiria, nesta referência sobre o incêndio, até mesmo o cinematógrafo dos irmãos Lumiére que, no ano em que foi criado, assombrou o mundo com um incêndio no Bazar da Caridade de Paris, com a morte de 125 pessoas.
O jornalista José Cola também questiona Ludovico sobre o desejo de fazer negócio com a máquina. E ele responde: “Como se sabe, o meu apparelho é útil à cinematographia sob todos os pontos de vista (…) é o machinismo mais perfeito, que até hoje se inventou. Pretendo fazer qualquer negócio com elle, é claro, por que não disponho de capital sufficiente para iniciar a fabricação do mesmo”. A matéria revela ainda que Ludovico criou expectativas de receber apoio governamental para a industrialização da máquina. “Preferia fazer um contracto com o nosso governo do que com qualquer companhia. Por enquanto, as propostas várias que tenho recebido, sem que eu as pedisse, não têm sido satisfactorias”. Ludovico chegou a desabafar seus medos: “Espero que o governo brasileiro não faça commigo o mesmo que o governo italiano fez com Marconi, caso eu lhe ofereça alguma proposta”. Ludovico refere-se a Guglielmo Marconi, o ´Pai da Radiodifusão’, que lutou para ter reconhecimento de suas pesquisas por parte das autoridades italianas.
Além da matéria “Um novo invento”, de 1926, a Revista Vida Capixaba, no início de 1927, publicou outra notícia sobre Ludovico, desta vez com o título “Um benemérito da arte muda”. A publicação traz uma foto em que Ludovico está rodeado de representantes de diversos jornais e revistas, que, mesmo com as dificuldades de transporte e comunicação, estiveram em Castelo para noticiar sobre o “Apparelho Guarany”. Os jornalistas foram identificados como: Aristides Paulino (Revista Vida Doméstica), Alfredo Marcos (A Manhã), Cyro Vieira da Cunha (Folha do Povo e O Cachoeirano), Anysio Novaes (O Jornal), José Cola (Vida Capixaba e O Progresso), Horácio Azevedo (A Defesa), Esperidião de Moura (O Castelo), Accácio Barrados (A Noite).
Seguindo a evidência de que todos os jornalistas que estiveram em Castelo produziram textos e fotos sobre Ludovico, é possível deduzir que a imprensa capixaba deu apoio ao inventor. Dos jornais citados, alguns exemplares de O Cachoeirano e O Progresso, sobreviveram ao tempo, porém os arquivos não são completos, o que dificulta o levantamento da divulgação feita no Espírito Santo na época.
Entre os jornalistas da foto está Cyro Vieira da Cunha, um influente intelectual da época, médico e professor, articulista dos jornais A Hora, Folha do Povo, Revista Vida Capixaba, O Cachoeirano, Correio do Sul, Diário da Manhã e, mais tarde, A Gazeta e A Tribuna. Foi membro da Academia Espírito-Santense de Letras, assessor de ministro e até interventor federal no Espírito Santo. Ele foi um grande amigo e incentivador de Ludovico. Arlindo conta que se lembra perfeitamente de um trecho do artigo escrito por Cyro, logo que Ludovico conseguiu patentear seu invento. “Ele escreveu: a paixão e a luta de Ludovico pelo cinema eram imensas. Por isso, todos o chamavam de louco, mas o seu regresso a Castelo, com o registro da máquina nas mãos, era como se gritasse: Vitória! Vitória!”.
Mesmo com a parceria do influente Cyro Vieira da Cunha que tinha muitos contatos fora do Estado, não há indícios de que a invenção de Ludovico tenha ganhado fama além das fronteiras capixabas, considerando o fato de que a máquina, aos poucos, foi caindo no esquecimento e nenhum contrato com o governo ou iniciativa privada foi registrado para sua comercialização. A precariedade do fluxo de informações numa região de péssimas estradas e escassos meios de comunicação deve ter colaborado para o insucesso de Ludovico. “Ele imaginava que o governo do Estado ou o governo Federal acenasse com apoio financeiro. Como nada disso aconteceu, aos poucos, o invento caiu no esquecimento. Era o sonho que se desvanecia”, conta o irmão.
Por volta de 1930, as expectativas de comercializar o “Apparelho Guarany” se renovam. Ludovico teria recebido a visita de um viajante mineiro. Não há informações sobre a identidade do visitante. O que se sabe é que ele influenciou o inventor a seguir para Minas Gerais, onde a indústria cinematográfica estava no auge, reconhecida até como parte dos ciclos regionais do cinema brasileiro. Conta Arlindo Persici: “Filmar roteiros completos de uma produção cinematográfica, ver seu nome projetado por todo o país. Era simplesmente justo para quem tanto trabalhou na construção do seu genial invento”.
De Minas, Ludovico teria enviado cartas animadas para a família, contando até da possibilidade de fazer cinema sonoro. Mas a máquina criada para o cinema mudo, dificilmente conseguiria espaço num ambiente em que os filmes estrangeiros, já na fase do cinema sonoro, dominavam por completo, trazendo produções de qualidade, com as quais o Brasil não tinha condições de concorrer. “O único sucesso que parece ter tido por lá foi a participação, como pistonista, da banda de música do Consulado Italiano”, recorda o irmão Arlindo.
O destino da máquina de Ludovico, depois de sua ida para Belo Horizonte, passa a ser incerto. A família nunca mais soube dela. “Esse tal cidadão, na verdade, não passou de um aventureiro. Nas cartas que nos enviou, Ludovico nunca fez menção a ele, nenhuma referência sequer. Na capital mineira, o inventor ficou abandonado à própria sorte, culminando no desaparecimento para sempre da genial máquina de filmar”, lamenta Arlindo Persici.
Ludovico era dependente de álcool. Para a família, a doença, além da falta de apoio governamental, pode ter sido um dos principais obstáculos ao seu sucesso. Nos registros de Arlindo, ele se refere ao alcoolismo como “malfadada dependência” e desabafa: “Fica até difícil imaginar qual teria sido o incidente a produzir o desaparecimento da tão preciosa invenção. Em Belo Horizonte, morriam os sonhos e, praticamente, a história da invenção de uma máquina de filmar em solo capixaba. Se lhe perguntavam: e a máquina, Ludovico? Onde está? Vendeu? Emprestou? O irmão respondia, envergonhado, com evasivas palavras, que nada explicavam.”
Em 1935, com a morte do pai, ele volta ao Espírito Santo desiludido com a falta de apoio. Ele evitava falar na máquina, sinal de frustração. Em Belo Horizonte teria negociado o seu invento. Não há registros sobre o Apparelho Guarany no Arquivo Nacional ou nos museus da Imagem e do Som espalhados pelo país, a não ser que tenha recebido outro nome. Também é possível que esteja em poder de algum colecionador de peças antigas.
Filme de ficção marca pioneirismo de Ludovico
Logo que concluiu a máquina, Persici tratou de colocá-la em funcionamento. Fez várias produções no interior capixaba. Como explica O ciclo de cinema brasileiro, na década de 20, época em que ele começa a entrar em cena, com sua câmera portátil, o cinema brasileiro já se encontra à margem dos interesses do mercado e quase ignorado pelo público. A produção nacional sobrevive apenas, com alguma continuidade, no único campo em que o filme estrangeiro não lhe oferece concorrência: o das atualidades locais. Era a crônica do cotidiano brasileiro que o cinema começava a tecer, mostrando aspectos da vida social. A obra de Ludovico encaixa-se nesta característica do local, com a produção de Cenas de Castelo, As melindrosas castelenses passeando pelas ruas da cidade, Cenas de família, A baratinha (primeiro carro da cidade), além de imagens de fazendas, festas, paisagens e outras.
Enquanto o norte-americano David W. Griffith, desde 1916, com Intolerance, já aperfeiçoava o processo de linearização narrativa e as técnicas de montagem paralela, Ludovico ainda iniciava a idéia de criar um filme de enredo. Rogério Medeiros conta (na revista 37 do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo), que Ludovico percorria as cidades vizinhas com sua máquina, registrando casamentos, festas familiares e mesmo municipais, fotografando e filmando. Com os recursos que obtinha, ele se programava para filmar um Bang-bang nos moldes do faroeste americano (western), gênero que estava no gosto popular. Ele era fã de Tom Mix, o maior cawboy de todos os tempos. E tentou imitá-lo, sendo o próprio cawboy do filme que dirigiu. A produção foi rodada em Conceição de Castelo com películas importadas da Europa, que não se sabe como ele conseguia.
O crítico de cinema Alex Viany, teria afirmado, como escreveu Maria Eugênia Moscon, na revista nº 37 do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, que esta produção, possivelmente, tenha sido a primeira do gênero do país. “Ao contrário das cenas da “Baratinha” (o primeiro automóvel de Castelo), que mostra uma câmera indecisa e um pouco trêmula, as poucas cenas do Bang-bang são de uma segurança notável, destacando-se as de uma cavalgada e de uma briga”.
Em Castelo, Ludovico apresentava seus filmes antes das sessões principais do American-Cine, o local onde trabalhava. Assim, o público castelense via seu cotidiano representado na tela grande. Como diz Salles Gomes, “no Brasil, em geral, era essa curiosidade local e a benevolência de um ou outro exibidor da região que faziam das primeiras experiências do cinema brasileiro, sempre precárias, um razoável sucesso; “mas logo depois, a realidade dos fatos se impõe de modo inelutável: tais filmes não têm a menor condição de enfrentar a produção estrangeira, e fora da região de origem, não conseguem exibição”.
Ele aproveitou a curiosidade do público para angariar uns recursos extras. A exemplo do que fez na cidade de Conceição de Castelo, improvisou um galpão nos fundos da casa da família e transformou-o em sala de cinema, onde projetava seus filmes, nunca com menos de 20 pagantes. Em matéria publicada no jornal A Gazeta, em 7 de outubro de 1973, o crítico de cinema capixaba Amylton de Almeida entrevistou a mãe de Ludovico, Maria Giro. Ela contou: “os espectadores eram exigentes, queriam ver várias vezes os filmes, principalmente as brigas, só para verificar se os socos eram de verdade”.
Assim como sua máquina, a maior parte da produção de Ludovico se perdeu no tempo e, quando já se esgotavam quase todas as expectativas de encontrar fontes materiais para o resgate da memória do cineasta, aparece, em Salvador (BA), o filme Cenas de Família de quase 20 minutos. Quem intermediou os contatos foi o historiador José Eugênio Vieira, quando fazia pesquisas para o livro Castello – Origem, Emancipação e Desenvolvimento (2005).
Não se sabe o título original que Persici deu ao filme restaurado. A película traz um apanhado de cenas em locações bastante variadas: passa por várias estações de trem de Castelo até Cachoeiro do Itapemirim, por fazendas, ruas e vilas. Mostra também banhistas divertindo-se em Marataízes, sul do ES, e obras de construção de uma rodovia que, acredita-se ser aquela que liga Castelo a Muniz Freire. Há inclusive cenas que, pela movimentação de automóveis e de bondes elétricos, indicam ser do Parque Moscoso, em Vitória. A confirmação desta informação depende de estudo comparativo com fotografias da arquitetura da época. Havendo confirmação, Ludovico desbanca o espanhol Luiz Gonzales Batan do posto de realizador das primeiras imagens de Vitória.
Ludovico morreu com tuberculose em 1944. Desde sua morte, até os anos 70, ficou esquecido pela imprensa capixaba e pela historiografia. O jornalista Ronald Mansur foi quem ressuscitou a memória do cineasta, quando teve acesso às páginas do livro de Domingos Ubaldo Lopes Ribeiro, de 1928, que falava da patente da máquina de filmar. “Eu costumo dizer que estava na hora certa e no lugar certo, quando aquele material caiu em minhas mãos. Não cheguei a escrever nada sobre ele, preferi passar a pauta para o Rogério Medeiros que era correspondente do Jornal do Brasil”, explica Mansur. Foi, então, o início de um processo que levou à produção do filme O sonho e a máquina, assinada pelo crítico de renome nacional, Alex Viany.
Muitos curiosos, historiadores e jornalistas já tentaram resgatar a história de Ludovico Persici. Mas todo o esforço ainda não deu conta de explicar sua vida e suas dificuldades. Conseguimos vencer alguns obstáculos, mas o resultado foi bem menor do que esperávamos. Ainda resta meia centena de itens na lista de fontes a pesquisar.
Os intermináveis jornais antigos ainda estão perdidos em arquivos particulares e bibliotecas deste Estado afora. Nos anos de 1970, em uma enchente do Rio Castelo, a família perdeu o precioso arquivo de recortes de jornais, fotos e cartas de Ludovico. Concluímos que, nem a sociedade, nem o próprio Ludovico tinham noção do que aquilo tudo representava para a história. Se hoje, na era da informação, o país não valoriza a pesquisa e a ciência, imaginemos naquela época. Num país que aceitava (e ainda aceita) com a maior cordialidade a entrada de produtos estrangeiros em todas as áreas de sua estrutura econômica, ninguém sequer pensava na possibilidade de fortalecer e salvar o cinema capixaba. A culpa é macro, é do sistema e não da família humilde que trabalhava com honestidade para sobreviver num país que havia lhe prometido a glória e a riqueza.
Além de alguns sobrinhos, em 2006, encontramos em Cachoeiro de Itapemirim o irmão Arlindo e a cunhada Hermelinda, ambos já com mais de 90 anos. Está certo que a memória não ajudava muito, mas Arlindo, em muito contribuiu para este resgate de Ludovico. Na década de 90 ele escreveu várias crônicas sobre sua família. Os filhos digitaram e encadernaram todo o material. Acometido pelo Mal de Alzheimer, Arlindo precisava da ajuda da mulher e do filho Mateus para lembrar do passado.
E a pergunta que respondemos é: qual é o lugar de Ludovico na história do cinema nacional? Ele teve o mérito de, possivelmente, ter sido um dos primeiros a aperfeiçoar a invenção de uma máquina de filmar no Brasil. Mais ainda foi ter produzido tal equipamento numa região onde não havia a menor noção de cinema, nem de engenharia. Também devem ser creditados a Ludovico outros feitos como o de ter produzido um filme de enredo considerado pioneiro no gênero. Sem contar que, à época da produção, o cinema brasileiro passava por completa apatia, com raras produções nacionais. Com tudo que enfrentou – a descrença, o preconceito, a resistência e a solidão –, Ludovico merece espaço na história, como um homem que acreditou no cinema brasileiro, mesmo quando o mundo inteiro já dizia “amém” a Hollywood.
Registros cinematográficos capixabas nos Anos 30
Luiz Gonzáles Batan nasceu na Espanha, em 1896. Veio para o Brasil na década de 20, onde se instalou inicialmente em Porto Alegre. Mudou-se para Vitória pela primeira vez em 1935, onde trabalhava como representante de uma empresa alemã, Casa Lohner, que vendia equipamentos médicos hospitalares. Foi desta empresa que recebeu uma câmera de cinema 16 mm para ser colocada à venda para médicos interessados. Com o equipamento registrou as imagens da cidade de Vitória e de uma mãe, sua mulher segurando um bebê. As passagens mostram locais pitorescos de Vitória em 1938: o Parque Moscoso, o Porto de Vitória, crianças brincando na Praça Costa Pereira e até o campo de futebol do Clube Vitória.
Mais tarde um de seus filhos, o caçula da família – Ramon Alvarado – seguiu a carreira de cineasta em Vitória e Rio de Janeiro. Com as imagens produzidas pelo pai em 16 mm reversível, Ramon realizou uma exibição no Festival de Cinema Amador Capixaba (1967), com o título de Vitória 1938. Em 1995, Ramon Alvarado telecinou e sonorizou as imagens produzidas pelo pai, realizando um segundo trabalho: Um belo dia.
Patrícia Bravin é jornalista
Referências:
Bravin, Patrícia. Ludovico Persici e a origem do cinema no Espírito Santo. Monografia de conclusão do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo, 2006.
Costa, Flávia Cesarino. O primeiro cinema: Espetáculo, narração, domesticação. São Paulo: Scritta, 1995.
Lopes, Almerinda Silva. Memória aprisionada: A visualidade fotográfica capixaba 1850/1950. Vitória: Edufes, 2004.
Moscon, Maria Eugênia. Ludovico Percisi: Um lugar para o Espírito Santo no cinema. Revista do Instituto Histórico e Geográfico, nº 37. Vitória: ihges, 1986.
Vieira, José Eugênio. Castello: Origem, emancipação e desenvolvimento. Vitória: Traço Certo, 2004.
Texto publicado originalmente em:
OSÓRIO, Carla (org.) Catálogo de filmes: 81 anos de cinema no Espírito Santo. Vitória: ABD&C-ES, 2007.
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